Tenho o «Zil Zelub» (Presença, 1972) de Guido Buzzelli desde
os anos 70 e creio que, com uma ilustração de uma história quase anónima sobre
Cristóvão Colombo incluída na colecção A Descoberta do Mundo (Dom Quixote,1981),
a presença d’o Miguel Ângelo dos Monstros
em Portugal, acabava aqui.
Guido Buzzelli nasceu em 1927 em Roma no seio de uma família
de artistas. Depois dos estudos clássicos começou por seguir os passos do pai
como pintor, mas tentou a banda desenhada pouco depois, tendo começado por
desenhar capas ou fazendo trabalhos gráficos para a revista Zorro. Pouco depois
mudou-se para Espanha e depois para o Reino Unido, tendo retornado a Itália para
se dedicar de novo à pintura, ao mesmo tempo que se lançava no seu primeiro projecto
fumetti de fôlego, «La rivolta dei
racchi» («A Revolta dos Feios», 1966).
«A Revolta dos Feios», a história e o desenho, continha já
tudo o que haveria de ser reconhecido num dos mais singulares da BD mas, para
grande desgosto seu, ele não logrou encontrar um editor que o publicasse. Os
ambientes futuristas e fantásticos, o estilo feio, as figuras grotescas, desfiguradas,
e a mensagem política provocatória, não era do agrado das editoras europeias da
altura, que o ignoraram, até que Wolinski o descobriu para a Charlie (Mensuel).
Wolinski, também ele um provocador, viu na «metáfora sarcástica da luta de
classes» e das figuras decadentes d’A Revolta dos Feios o que outros não tinham
visto, e o sucesso foi imediato. (E foi no Charlie que o conheci.)
O sucesso entre a crítica e o público valeu-lhe convites da Pilote
ou da Métal Hurlant e publicação em várias línguas. A crítica chamou a Buzzelli
«o pai da novela gráfica do absurdo», «o Miguel Ângelo dos monstros», «o Goya
da banda desenhada», e falava da «anatomia perfeita que destroçava os cânones
clássicos para colocar a nu a hipocrisia e a violência social da burguesia», «pesadelos
distópicos», «a subversão do ideal de beleza renascentista»; e depois de anos
ignorado, Buzzelli foi finalmente consagrado com o prémio Yellow Kid do
festival de Lucca em 1973, e em 1974 ele foi o convidado de honra do 1.º
Festival de Angouléme, ao lado de Will Eisner, Hugo Pratt e Burne Hogarth.
A título de curiosidade, nascido de uma família de artistas Guido
Buzzelli teve uma sólida formação clássica de pintura e desenho na Accademia di
San Luca (Roma) e completou a aprendizagem ingressando como discípulo nas
oficinas de grandes mestres da ilustração italiana da época. De acordo com os especialistas,
foi exactamente a formação clássica, o conhecimento anatómico e espacial da
pintura clássica que o autorizou
romper todas as regras na banda desenhada.
O único álbum publicado em Portugal, pois, Zil Zelub, de
1971, era uma história de ficção científica do tipo apocalíptico, já nessa
altura denunciando a poluição e a destruição do planeta (e tenho de a reler,
quando a encontrar).
(E já agora a tal história do Cristóvão Colombo a que me
referi no início partilha o livro com outra história, Vasco Nuñez de Balboa,
com argumento de André Bérélowitch e desenho de um desconhecido… Maurillo
Manara.)
HP, de 1974, pela primeira vez editado, pertence a este
mundo distópico de Buzzelli, um mundo destruído pelas bombas, onde os humanos
vivem segregados em cidades futuristas e desertos miseráveis, entre tribos e seitas.
Eu creio que esta história terá uma continuidade que eu não conheço, com personagens
que ficam algo soltos, e eu gostaria de ler o resto.
Ao procurar, descobri que foi editada já este ano no Brasil uma
compilação com três histórias, A Revolta dos Hediondos, Zil Zelub e Os
Labirintos, a que deram o nome de A Trilogia.
Será que terá edição nacional? Sim, por favor! (Não me
apetece ler em brasileiro…)
HP de Guido Buzzellli foi editado já este ano pela Escorpião
Azul.






