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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Terra de sonhos




1.ª história.
Um homem e uma mulher tinham um cão. O cão estava velho e doente. Eles procuraram de todas as formas oferecer um resto de vida digna ao cão. O cão nunca mais morria. Morreu.

2.ª história.
Ofereceram uma gata persa ao mesmo casal da história anterior. A gata estava grávida e teve três ou quatro gatinhos (a história baralha-se algures). A gata é burra e não trata dos filhos. Os donos têm que intervir e finalmente ela adopta-os. Felicidade.

3.ª história.
Enquanto os gatinhos crescem encontram uma vizinha que tinha um cão velho como o que tinha sido deles. O cão foge e depois é encontrado. Depois morre. Conseguem dar um dos gatinhos, mas resolvem ficar com os outros dois mais a mãe.

4.ª história.
A sobrinha da mulher, com doze anos, apareceu lá em casa, porque a mãe, viúva, resolveu casar de novo. Durante dois meses a miúda fica lá em casa e o tio joga basebol com ela. No fim ela regressa a casa, a mãe casa-se e o padrasto joga basebol com ela.  

5.ª história.
Dois amigos subiram ao Evereste. Tomaram um ácido qualquer (ou foi do ar rarefeito) e viram um tigre a 6000 metros de altura. Não conseguiram chegar ao topo e um deles morreu. O sobrevivente regressou, casou-se e teve um filho. A pedrada do alpinismo não lhe tinha passado e ele gastou o dinheiro todo da família para regressar aos Himalaias. Conseguiu chegar ao topo da montanha com um sherpa, voltou a ver o tigre e despediu-se do amigo.
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Nem todas as histórias têm de ser grande histórias e algumas das melhores histórias da literatura (ou do cinema, ou da banda desenhada) são pequenas histórias de felicidade ou de tristeza do dia a dia, e o que o Jira Taniguchi escolheu contar cinco histórias banais. Mas quantas vezes pequenas histórias do quotidiano se tornaram grandes histórias pela arte do narrador? – Não é o caso. O estilo manga – aqueles rostos e aqueles olhos esbugalhados sempre iguais -, do autor, excessivamente realista e simples, não introduz qualquer dramatismo, ou sequer interesse, à história.  


Terra de Sonhos, Jiro Taniguchi, Novela Gráfica II, Público/ Levoir 2016 




sábado, 13 de agosto de 2016

Parque Chas





Publicado originalmente na revista Fierro em 1987, Parque Chas de Eduardo Risso (desenhos) e Ricardo Barreiro (argumento), relata uma série de histórias fantásticas passadas no Parque Chas de Buenos Aires. Com um desenho muito interessante, de sombreados de carvão, a história perde-se num intrincado fantástico pouco conseguido e um humor excessivamente simplista.

Parque Chas é a novela gráfica número 7 da série II do Público.
Boa impressão.


Parque Chas, Ricardo Barreiro e Eduardo Risso, Novela Gráfica II, Público/ Levoir, 2016



A Garagem Hermética





Sexto volume da colecção de novelas gráficas do Público, A Garagem Hermética de Moebius é um dos grandes momentos da banda desenhada dos anos 70.
Surrealista, diríamos, a Garagem Hermética constituiu um choque para os fãs do desenhador Gir – Jean Giraud – que há mais de uma década assinava o desenho hiper-realista de Lieutenant Blueberry - Tenente Blueberry em português. Publicado a partir de 1976 e até 1979 na revista Métal Hurlant, o alter-ego de Gir revelava-se uma surpresa, no desenho, muito mais estilizado, e na narrativa e na história, irregular e caótica. A história foi aliás improvisada, ao sabor do tempo, com personagens que aparecem e desaparecem e que eventualmente são recuperados, com situações e lugares retirados da ficção científica ou de um qualquer imaginário fantástico e raramente coerente, numa sequência com tanto de confuso quanto de delirante. 
A colaboração com a Métal Hurlant já tinha anteriormente dado frutos com a publicação de algumas curtas histórias de Arzach, e viria a ter outros grandes episódios com a colaboração do argumentista Jodorowsky na série de fc-fantástico L’Incal (O Incal, também publicado em Portugal em várias histórias).
A preto e branco no original (ao contrário das histórias de Blueberry que eram luxuosamente coloridas), A Garagem Hermética foi posteriormente colorida e teve uma edição portuguesa (com alguns problemas de impressão na cor) da Meribéria nos anos 90. Respeitando o original a preto e branco, esta edição, sem desmerecer, acusa também um problema de impressão, algo esbatida, que atribuo ao facto de ter sido feita a partir de fotografia e não das pranchas originais. Este problema persiste também na edição da Valentina, embora nessoutra se não note tanto, mas já seja algo mais grave nalgumas edições da anterior série das novelas gráficas do Público, e em especial no fantástico Mort Cinder de Breccia.


A Garagem Hermética, Moebius, Novelas Gráficas II, Público/ Levoir, 2016

Valentina





Já vai no nono volume a série II das novelas gráficas do Público: o Valentina de Guido Crepax. Para trás ficaram Alan Moore/ David Floyd – V de Vingança -, Miguelanxo Prado – Presas Fáceis, Moebius – A garagem hermética -, Joe Kubert – Fax de Sarajevo -, entre outros.
Capas cartonadas, versões integrais (ou reunião de várias histórias, quase sempre ultrapassando a centena de páginas) e originais, a edição merece referência.
Valentina é uma criação do desenhador italiano Guido Crepax (1933-2003). Nascida como personagem secundária numa história de policial fantástico, Neutron, publicada na revista Linus em 1965, mas apenas dois anos depois ela tornar-se-ia a heroína principal das histórias de Crepax, com mais de trinta histórias publicadas.
As histórias que são hoje publicadas remontam ao período de 1968 até 1975, começando por apresentar a heroína em criança, mas progressivamente, e logo pouco depois, o desenho ganharia uma carga erótica que se manteve até ao fim. Onírico, fantástico, erótico, o preto e branco (de raros sombreados) de Guido Crepax rompe decididamente com a narrativa cinematográfica da banda desenhada clássica, utilizando cada prancha como um todo, sem quadrados de tamanho ou posição regular, com cercaduras bem marcadas, mas aqui e ali desfazendo as linhas, combinando grandes planos com planos de conjunto, deslocando a visão para planos impossíveis, detalhando, com sequência nem sempre óbvia, parando o tempo ou precipitando a narrativa.
A figura de Valentina inspira-se na actriz do cinema mudo Louise Brooks (1906-1985), que Crepax transformaria num ícone da banda desenhada, despindo e vestindo, jogando com a anatomia esguia de forma agressiva.
As histórias de Valentina estão cheias de referências – fantasmas - de toda a ordem, mais ou menos explícitas, políticas, sociais, artísticas, literárias, cinematográficas, musicais (Guido Crepax era um apaixonado pelo Jazz), ou à própria banda desenhada.
São cento e setenta e seis páginas de banda desenhada, a grande banda desenhada, pela mão de um dos seus mais singulares e geniais autores.
Obrigatório.

Valentina, Guido Crepax, Novelas Gráficas II, Público/ Levoir, 2016