quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Guido Buzzelli

Tenho o «Zil Zelub» (Presença, 1972) de Guido Buzzelli desde os anos 70 e creio que, com uma ilustração de uma história quase anónima sobre Cristóvão Colombo incluída na colecção A Descoberta do Mundo (Dom Quixote,1981), a presença d’o Miguel Ângelo dos Monstros em Portugal, acabava aqui.

Guido Buzzelli nasceu em 1927 em Roma no seio de uma família de artistas. Depois dos estudos clássicos começou por seguir os passos do pai como pintor, mas tentou a banda desenhada pouco depois, tendo começado por desenhar capas ou fazendo trabalhos gráficos para a revista Zorro. Pouco depois mudou-se para Espanha e depois para o Reino Unido, tendo retornado a Itália para se dedicar de novo à pintura, ao mesmo tempo que se lançava no seu primeiro projecto fumetti de fôlego, «La rivolta dei racchi» («A Revolta dos Feios», 1966).

«A Revolta dos Feios», a história e o desenho, continha já tudo o que haveria de ser reconhecido num dos mais singulares da BD mas, para grande desgosto seu, ele não logrou encontrar um editor que o publicasse. Os ambientes futuristas e fantásticos, o estilo feio, as figuras grotescas, desfiguradas, e a mensagem política provocatória, não era do agrado das editoras europeias da altura, que o ignoraram, até que Wolinski o descobriu para a Charlie (Mensuel). Wolinski, também ele um provocador, viu na «metáfora sarcástica da luta de classes» e das figuras decadentes d’A Revolta dos Feios o que outros não tinham visto, e o sucesso foi imediato. (E foi no Charlie que o conheci.)

O sucesso entre a crítica e o público valeu-lhe convites da Pilote ou da Métal Hurlant e publicação em várias línguas. A crítica chamou a Buzzelli «o pai da novela gráfica do absurdo», «o Miguel Ângelo dos monstros», «o Goya da banda desenhada», e falava da «anatomia perfeita que destroçava os cânones clássicos para colocar a nu a hipocrisia e a violência social da burguesia», «pesadelos distópicos», «a subversão do ideal de beleza renascentista»; e depois de anos ignorado, Buzzelli foi finalmente consagrado com o prémio Yellow Kid do festival de Lucca em 1973, e em 1974 ele foi o convidado de honra do 1.º Festival de Angouléme, ao lado de Will Eisner, Hugo Pratt e Burne Hogarth.

A título de curiosidade, nascido de uma família de artistas Guido Buzzelli teve uma sólida formação clássica de pintura e desenho na Accademia di San Luca (Roma) e completou a aprendizagem ingressando como discípulo nas oficinas de grandes mestres da ilustração italiana da época. De acordo com os especialistas, foi exactamente a formação clássica, o conhecimento anatómico e espacial da pintura clássica que o autorizou romper todas as regras na banda desenhada.

O único álbum publicado em Portugal, pois, Zil Zelub, de 1971, era uma história de ficção científica do tipo apocalíptico, já nessa altura denunciando a poluição e a destruição do planeta (e tenho de a reler, quando a encontrar).

(E já agora a tal história do Cristóvão Colombo a que me referi no início partilha o livro com outra história, Vasco Nuñez de Balboa, com argumento de André Bérélowitch e desenho de um desconhecido… Maurillo Manara.)  

HP, de 1974, pela primeira vez editado, pertence a este mundo distópico de Buzzelli, um mundo destruído pelas bombas, onde os humanos vivem segregados em cidades futuristas e desertos miseráveis, entre tribos e seitas. Eu creio que esta história terá uma continuidade que eu não conheço, com personagens que ficam algo soltos, e eu gostaria de ler o resto.

Ao procurar, descobri que foi editada já este ano no Brasil uma compilação com três histórias, A Revolta dos Hediondos, Zil Zelub e Os Labirintos, a que deram o nome de A Trilogia.

Será que terá edição nacional? Sim, por favor! (Não me apetece ler em brasileiro…)

HP de Guido Buzzellli foi editado já este ano pela Escorpião Azul.

 


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Cinemateca ao ar livre

Desde miúdo que eu gosto de cinema ao ar livre.

A primeira vez de que me lembro foi em Castelo Branco, eu era miúdo, talvez doze anos, com o meu primo, um filme de acção, qualquer coisa em Beirute; já nesse os libaneses eram massacrados, mas eu não dei por nada.

Mais tarde, estive a trabalhar dois anos em Sines e tinha um cinema enorme com uma esplanada, as pessoas levantavam-se a toda a hora para ir ao bar, mas eu achava graça. Nesse período nem perguntávamos o que ia passar, íamos ao cinema e pronto; também não havia muito mais para fazer, era ir ao cinema ou beber ou ficar a jogar poker de dados. Foi aí que eu vi os meus primeiros Bruce Lee, mas ia duas ou três vezes por semana ao cinema.

Enfim, era só para dizer que gosto de cinema ao ar livre.

Pois a Cinemateca regressou com um ciclo ao ar livre, no terraço superior, com uma programação a que deram o nome de Rebeldes sem Causas (numa referência óbvia ao Rebel Without a Cause do icónico James Dean).

Já tinha ido à Cinemateca a uma destas sessões há uns anos e nunca mais fui, porque não calha ou porque não tenho informação. Desta vez a informação veio até mim, e eu até pensava que a Cinemateca fechava em Agosto.

O tema dos rebeldes dá para tudo, como é bom de ver, entre o filme de Nicholas Ray, o West Side Story, o Saturday Night Fever, o The Outsiders, o American Graffity, o The Graduate ou o Hair, mas houve dois que me chamaram a atenção: o Bonjour Tristesse do Otto Preminger, que eu nunca tinha visto, e o Splendor in the Grass do Elia Kazan, que eu devo ter visto há cinquenta anos, e de que tinha uma memória longínqua.


Bonjour Tristesse, Ottto Preminger

Confesso que o Bonjour Tristesse me causou alguma desilusão, até talvez pela expectativa. O que me ficou foi um filme algo datado, e com uma dramatismo mais informado pela Jean Seberg, do que filmado. Quero dizer, há uma ligeireza nos actores, que me dirão ser intencional, que pretenderá transmitir a futilidade dos personagens, mas que não é convincente. O filme ganha alguma densidade a partir de algum tempo, mas mais pela insistência num desespero que não chegou a ser fundado. A filha, Cécile, revolta-se com a futura madrasta, Anne, que com pouca credibilidade, começa a comportar-se com a madrasta má das histórias logo no dia em que Raymond, o pai, aceita casar com ela, questionando e contrariando a frivolidade de Cécile, num despropósito que o filme não explica.

A revolta de Cécile leva-a a montar uma trama que acaba por levar Anne a um provável suicídio, provocando um alegre desespero – olá tristeza, coucou -, mas tudo isto é mais dito que filmado.

Bénard da Costa não está de acordo comigo, é claro, e talvez ele tenha razão e eu não, mas a meu ver falta densidade ao filme.

Li atentamente a folha de sala, já depois de ver Bonjour Tristesse, e admito que deveria ter tido mais atenção. Porque eu não questiono o génio da cena final quando vemos Cécile que se esgueira para ver Anne, que surpreende a traição sem que a revele, que nós apenas ouvimos, mas não vemos; ou a alternância entre a cor e o preto e branco, o que a meu ver não é claro; e a relação incestuosa de Cécile e o pai (de que fala Bénard da Costa) não é tão evidente assim.  

Ainda pensei ver o filme de novo, mas fica para outra oportunidade.



Splendor in the Grass, Elia Kazan

Voltei à Cinemateca no dia seguinte para ver o Splendor in the Grass.

Tenho de contar que, apesar de me recordar pouco do filme, eu tinnha ficado com uma obsessão pelo Esplendor na Erva que deveria advir de uma revolta adolescente anti-patriarcal e anti-moralista.

A obsessão levou-me a procurar durante anos o autor do poema, até que há uns anos descobri uma colectânea de Poemas Escolhidos de William Wordsworth, que adquiri e conheci, enfim.

E ainda bem que regressei à Cinemateca, porque adorei rever o filme de Elia Kazan, e diria que não perdeu frescura, nem força, nem drama, nem beleza.

É uma história de amor, desespero e loucura, dolorida e bela, com Warren Beatty e Natalie Wood nos papéis das suas vidas, inesquecíveis. É uma história de amor que atravessou o tempo e que não perdeu nada com o tempo, nem perderá.

O drama está lá todo, contado magistralmente. Kazan agarra-nos pelo pescoço e conduz-nos pelo drama, cru e quente, e não nos conta a história: nós entramos nela e nós somos Bud e Deanie e sofremos como eles. Irrepreensível na forma como a história está contada, com um drama e densidade únicos. 

Talvez que do ponto de vista formal o Esplendor na Erva não seja tão singular; não deu para perceber: eu estava agarrado. Fica para outra oportunidade.     



      

sábado, 6 de junho de 2026

O dia em que Salazar censurou a Nivea

Bom, não exactamente; era só para chamar a atenção, foi publicidade enganosa. 
Em primeiro lugar não foi o Salazar quem censurou a Nivea, porque já tinha morrido (isto passou-se em 1972), e o agora Primeiro Ministro era o Marcelo Caetano; e nem terá sido ele, pessoalmente, mas a sua celebérrima Comissão de Censura do SEIT/ SNI que censurou, e não o creme Nivea, mas dois anúncios publicitários da Nivea.

A cartinha que eu encontrei numa pasta do SNI na Torre do Tombo é da agência publicitária da Nivea reclamando junto da Comissão de Censura pela proibição da dois filmes-anúncio de 20" na RTP; um por desrespeito pela autoridade e outro pelas imagens de nudez. E vale a pena ler.

Lapidar, o onanista confirmava:
A Comissão decidiu não aprovar para exibição na RTP  

Má nada!

Mas ó santinhos! Então vocês queriam passar filmes de gajos a goza com a ótoridade e gajas nuas a untar creme no corpo todo na televisão! Homessa!!!!

(Estou mesmo a ver os venturas e os núncios de língua dependurada, à frente da televisão à espera do anúncio da Nívea!!! 😅😂😅😅)