sexta-feira, 23 de maio de 2014

A epifania do poejo


Como não sou alentejano (e cresci na cidade), o meu conhecimento da gastronomia alentejana tem-se feito de forma irregular, ao longo dos anos. Comida pobre, ou melhor, comida de pobre, ela é rica em diversidade: a excelente carne de porco autóctone – e tudo se come no porco entre o rabo e o focinho – alimentado a bolota e restos, temperada com as mais variadas ervas, os enchidos, o pão – e as açordas - e o queijo, o vinho, pois claro, até o peixe e os ovos, mas também as ervas «menores», as beldroegas, os cardos e os espargos, têm vindo a ganhar lugar na minha ementa, obrigando-me a desvios de quilómetros, que em boa verdade faço com gosto.   

A minha última epifania aconteceu com o poejo, há uns três anos.
Tinha um vago conhecimento do poejo, que resultava do licor que tinha provado numa feira. Mas faz-se licor de tudo e eu não sou um grande aficionado dos ditos, e tive más experiências no passado. Fico-me pela ginja, que ocasionalmente também experimento fazer. Mas regressando aos poejos, a minha ignorância era quase total: era uma erva que havia no Alentejo e no Algarve.

Andava eu um feriado passeando com a família pelo Alentejo quando se fez tarde para almoçar. Por qualquer razão (por ser feriado talvez), os restaurantes que procurei na zona estavam todos fechados. Achegava-me a Évora, já desesperado, quando passei por uma terriola de nome curioso, Azaruja (que é o que eu chamo a determinados indivíduos), onde ao perguntar por um restaurante me indicaram o Bolas, mesmo ao lado da praça de toiros.

Aquilo não tem grande aparência por fora, e noutra ocasião talvez eu tivesse passado. Mas a fome apertava e eu parei o carro para ver se ainda serviam.

Apenas trespassei a porta e levei um murro na cara: um cheiro intenso acre no ar pôs-me salivar imediatamente. Dirigi-me a um senhor que me pareceu ser o dono e perguntei-lhe ao que cheirava. Respondeu-me bonacheirão o Sr. Manuel (Bolas) que talvez fosse a sopa de poejos.

Pois veio a sopa de poejos com ovos e migas de espargos com carne de porco e não sei o
que estava melhor. E não mais esqueci. Voltei ao Bolas no ano passado e – mesmo se a experiência, do ponto de vista gastronómico, não se revelou tão singular (por culpa minha, reconheço, que lá cheguei num dia de semana já às três da tarde) – confirmei a excelência da cozinha do Bolas. Apenas aconselharia os interessados que ligassem previamente a reservar mesa e prato e sobretudo que chegassem a horas para almoçar.

Não é fácil encontrar poejos em Lisboa. Ora há um mês atrás andava eu pelo mercado de Vila Real de Santo António quando senti um cheiro no ar que se sobrepunha ao cheiro do peixe! que nem a minha sinusite crónica me impediu de reconhecer: havia poejos frescos!

Com o molho que comprei, experimentei fazer a minha primeira sopa de poejos. Socorri-me da internet e fiz uma sopa em tudo semelhante à sopa alentejana de coentros. A experiência, mesmo se agradável, esteve longe da sopa do Bolas. Talvez tenha deixado fritar demais a gordura do toucinho de porco preto com que iniciei a sopa, e o travo um pouco esturricado do - ainda que saboroso - toucinho intrometeu-se no sabor do poejo.

Encontrei poejos na semana passada em Lisboa, a preço gourmet, e desta vez quase dispensei a gordura do toucinho, mas introduzi outro elemento: o bacalhau.

Depois de fritar um pouco os alhos e os poejos esborrachados no almofariz, juntei-lhe uma posta de bacalhau desfiado com a sua água da cozedura. Depois de ferver, acrescentei os ovos para escalfar e pronto. Umas fatias de pão alentejano no fundo do prato e oh senhores!, que manjar! 
Simples e divinal!

Restaurante O Bolas, Azaruja

4 comentários:

  1. Gosto muito de poejo e deixa-me acrescentar que esta ervinha sempre comigo conviveu na Beira Alta, não é por isso exclusivo do Alentejo. E, vê lá que o ano passado cresceu na nossa relva!
    Aguardo que este ano nos brinde com o seu perfume.

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  2. O poejo é uma erva aromática muito comum também nos campos da Beira Baixa e é muito utilizado na gastronomia beirã. É famosa a miga de peixe do rio (barbo ou achigã) com poejos, em Malpica do Tejo, Lentiscais, Afríveda e outras aldeias na proximidade de Castelo Branco. O poejo encontra-se facilmente nos campos, e como tem um aroma caraterístico até eu que só distingo os bróculos da couve flor porque têm cores diferentes sou capaz de os encontrar.

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