terça-feira, 11 de agosto de 2026

Cinemateca ao ar livre

Desde miúdo que eu gosto de cinema ao ar livre.

A primeira vez de que me lembro foi em Castelo Branco, eu era miúdo, talvez doze anos, com o meu primo, um filme de acção, qualquer coisa em Beirute; já nesse os libaneses eram massacrados, mas eu não dei por nada.

Mais tarde, estive a trabalhar dois anos em Sines e tinha um cinema enorme com uma esplanada, as pessoas levantavam-se a toda a hora para ir ao bar, mas eu achava graça. Nesse período nem perguntávamos o que ia passar, íamos ao cinema e pronto; também não havia muito mais para fazer, era ir ao cinema ou beber ou ficar a jogar poker de dados. Foi aí que eu vi os meus primeiros Bruce Lee, mas ia duas ou três vezes por semana ao cinema.

Enfim, era só para dizer que gosto de cinema ao ar livre.

Pois a Cinemateca regressou com um ciclo ao ar livre, no terraço superior, com uma programação a que deram o nome de Rebeldes sem Causas (numa referência óbvia ao Rebel Without a Cause do icónico James Dean).

Já tinha ido à Cinemateca a uma destas sessões há uns anos e nunca mais fui, porque não calha ou porque não tenho informação. Desta vez a informação veio até mim, e eu até pensava que a Cinemateca fechava em Agosto.

O tema dos rebeldes dá para tudo, como é bom de ver, entre o filme de Nicholas Ray, o West Side Story, o Saturday Night Fever, o The Outsiders, o American Graffity, o The Graduate ou o Hair, mas houve dois que me chamaram a atenção: o Bonjour Tristesse do Otto Preminger, que eu nunca tinha visto, e o Splendor in the Grass do Elia Kazan, que eu devo ter visto há cinquenta anos, e de que tinha uma memória longínqua.


Bonjour Tristesse, Ottto Preminger

Confesso que o Bonjour Tristesse me causou alguma desilusão, até talvez pela expectativa. O que me ficou foi um filme algo datado, e com uma dramatismo mais informado pela Jean Seberg, do que filmado. Quero dizer, há uma ligeireza nos actores, que me dirão ser intencional, que pretenderá transmitir a futilidade dos personagens, mas que não é convincente. O filme ganha alguma densidade a partir de algum tempo, mas mais pela insistência num desespero que não chegou a ser fundado. A filha, Cécile, revolta-se com a futura madrasta, Anne, que com pouca credibilidade, começa a comportar-se com a madrasta má das histórias logo no dia em que Raymond, o pai, aceita casar com ela, questionando e contrariando a frivolidade de Cécile, num despropósito que o filme não explica.

A revolta de Cécile leva-a a montar uma trama que acaba por levar Anne a um provável suicídio, provocando um alegre desespero – olá tristeza, coucou -, mas tudo isto é mais dito que filmado.

Bénard da Costa não está de acordo comigo, é claro, e talvez ele tenha razão e eu não, mas a meu ver falta densidade ao filme.

Li atentamente a folha de sala, já depois de ver Bonjour Tristesse, e admito que deveria ter tido mais atenção. Porque eu não questiono o génio da cena final quando vemos Cécile que se esgueira para ver Anne, que surpreende a traição sem que a revele, que nós apenas ouvimos, mas não vemos; ou a alternância entre a cor e o preto e branco, o que a meu ver não é claro; e a relação incestuosa de Cécile e o pai (de que fala Bénard da Costa) não é tão evidente assim.  

Ainda pensei ver o filme de novo, mas fica para outra oportunidade.



Splendor in the Grass, Elia Kazan

Voltei à Cinemateca no dia seguinte para ver o Splendor in the Grass.

Tenho de contar que, apesar de me recordar pouco do filme, eu tinnha ficado com uma obsessão pelo Esplendor na Erva que deveria advir de uma revolta adolescente anti-patriarcal e anti-moralista.

A obsessão levou-me a procurar durante anos o autor do poema, até que há uns anos descobri uma colectânea de Poemas Escolhidos de William Wordsworth, que adquiri e conheci, enfim.

E ainda bem que regressei à Cinemateca, porque adorei rever o filme de Elia Kazan, e diria que não perdeu frescura, nem força, nem drama, nem beleza.

É uma história de amor, desespero e loucura, dolorida e bela, com Warren Beatty e Natalie Wood nos papéis das suas vidas, inesquecíveis. É uma história de amor que atravessou o tempo e que não perdeu nada com o tempo, nem perderá.

O drama está lá todo, contado magistralmente. Kazan agarra-nos pelo pescoço e conduz-nos pelo drama, cru e quente, e não nos conta a história: nós entramos nela e nós somos Bud e Deanie e sofremos como eles. Irrepreensível na forma como a história está contada, com um drama e densidade únicos. 

Talvez que do ponto de vista formal o Esplendor na Erva não seja tão singular; não deu para perceber: eu estava agarrado. Fica para outra oportunidade.