quinta-feira, 30 de julho de 2020

Hello darkness, my old friend

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence


Paul Simon

domingo, 11 de novembro de 2018

A decadência da Marvel

Já não há paciência para os filmes da Marvel, e vi-os quase todos. E falo com a autoridade de leitor da Marvel desde há 50!!!! anos. (Já vêem como sou velho.)
Com excepção para o Deadpool II, os últimos filmes são um desastre. E refiro-me ao Thor: Ragnarok, ao Black Panther e ao Avengers: Infinity War.
Os realizadores claramente não perceberam nada do espírito que fez a diferença do universo dos super-heróis, que os fez suplantar a DC do Super-Homem. Os super-heróis da Marvel eram também anti-heróis, com personalidade, que se identificavam com os leitores no sofrimento da adolescência. Tinham namoradas, dificuldades, família, vida quotidiana, as personalidades tinham densidade, e mesmo quando ganhavam, também perdiam. Eram anti-heróis. E não vou repetir o que a sociologia escreveu sobre o Homem-Aranha ou o Hulk.     
Noutro aspecto, os super-heróis da Marvel partiam de uma ficção científica (muito ralinha, convenhamos), mas ainda assim procuravam uma credibilidade científica: o Homem-Aranha andava dependurado em teias (suportado em reais particularidades aracnídeas provocadas, enfim... pela picada de uma aranha radioactiva contaminada num acidente: uma ficção científica muito generosa), enquanto que, pelo contrário, o Super-Homem voa desafiando as leis da gravidade (bom, e anda na rua de cuecas e capa. Alguém notou que numa das histórias do super-herói das cuecas azuis ele se desloca em voo ascensional directo para um helicóptero em queda, segurando-o sem qualquer amortecimento, o que deveria resultar na destruição imediata do helicóptero, como dois objectos que se chocam em grande velocidade).   
Os super-heróis da Marvel procuravam a identificação do (com o) público adolescente, enquanto os super-heróis anteriores, da DC ou outros do tipo Capitão Marvel (que dizia «Shazam» e se transformava) eram heróis distantes. Mesmo os mais poderosos, como o Thor ou o Hulk, e mesmo os Fantastic Four, seguiam de certa forma esta linha.   
A transposição da banda desenhada para o cinema tem decaído progressivamente. Alguns dos Homem-Aranha e um ou outro ainda procuraram recuperar esta identidade, mas a sua maioria descambou.
Já não há paciência enfim, para as histórias em que os super-heróis têm de defender a humanidade, ou mesmo todo o universo. Até mesmo o herói baço que o Pantera Negra sempre foi (um super-herói tardio, que procurava responder ao publicamente correcto, incluindo um super-herói negro - significativamente «Black Panther -, secundando um outro - Falcão -, companheiro negro do Capitão América) foi recuperado da pior forma (e já não falo de alguns pormenores a rasar o racismo - os pretos falam com sotaque de Bronx - e utilizam pedras e poderes mágicos ancestrais) e vive numa terra ocultada por uma neblina (mas isso já vem do Jules Verne e do Edgar Alan Poe, se bem me recordo).      
Mas os Homem de Ferro têm tendência para partir Nova Iorque toda em cada filme, os Avengers passam a vida a invocar monstros do tipo Godzilla ou vão buscar ao Senhor dos Anéis, e os demónios do Thor têm cabeça de bode com cornos e tudo, e são vermelhos e chispam fogo... Só criatividade.
Muita desta inópia virá já dos livros, verdade, mas foi claramente acentuada no cinema. Os últimos filmes da Marvel têm argumentos verdadeiramente indigentes, vivem basicamente dos efeitos especiais, os realizadores desistiram de fazer cinema. Dir-me-ão que se trata do cinema das pipocas, o que será verdade, mas a saga d'O Senhor do Anéis ou os Harry Potter também eram e eram divertidos (eu diverti-me). Estes não. A excepção terá sido talvez a incursão de Thor (no Ragnarok), por momentos, no planeta do lixo, mas o realizador não percebeu a boa história que poderia ter tido aí, e perdeu-se.

O Infinity War foi o culminar desta indigência. A história original já não era grande coisa, mas o realizador deu cabo dela definitivamente. Aquela confusão das pedras mágicas que juntas ofereciam os poderes supremos ao seu possuidor e poderiam destruir o universo; nossa senhora: acabou-se. Para magia temos as histórias do Tolkien e da J. K. Rowling, mas elas tinham coerência em si mesmas. O Infinity War é fogo de artifício e magia de pacotilha: muito mau. (Ou então fui eu que cresci.)

A excepção vai para o Deadpool, o único «herói» com graça. Mas o Deadpool é uma sátira em torno do universo dos super-heróis; um super-anti-herói bronco, mal educado e pouco politicamente correcto.
O Deadpool goza com o universo dos super-heróis, goza com a própria lógica que lhe está subjacente, e é muito divertido. É um filme de super-heróis «para adultos», e diria que se inspira na mesma cultura pop, e possui a mesma lógica, do universo onde vivem os quatro alucinados amigos do Big Bang Theory.  

(Este post já foi escrito há uns largos meses mas, por qualquer razão andou por aí perdido. Aqui vai...)


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Once Upon a Time in the West - cinema no CCB


O CCB tem programada uma série de sessões de clássicos de cinema para o Grande Auditório, à média de uma por mês. Já passou o E tudo o vento levou e o Mary Poppins e estão agendadas coisas como o Aconteceu no Oeste, o Spartacus do Kubrick, o Breakfast at Tiffany´s de Blake Edwards e o West Side Story do Robert Wise.
Ainda, de 10 a 21 de Abril, um ciclo dedicado a Hyeronimus Bosch (que inclui outros espectáculos) leva ao palco, aliás ecran, do
Pequeno Auditório, sete filmes - tantos quantos os pecados capitais: A festa de Babette (Gabriel Axel); Eyes Wide Shut (Stanley Kubrick); La Haine (Mathieu Kassovitz); What Ever Happened to Baby Jane (Robert Aldrich); As férias do Sr. Hulot (Tati); O quarto mandamento (The Magnificent Ambersons) (Orson Welles); O Lobo de Wall Street (Scorcese); e ainda o documentário El Bosco, El Jardín de los Sueños de José Luis López-Linares a 15 de Abril; este último no Grande Auditório.
Mas o Aconteceu no Oeste (Once Upon a Time in the West,1968) é o mais célebre dos Sergio Leone e conta com Claudia Cardinale, Charles Bronson e Henry Fonda no elenco. Ah, e Ennio Morricone na música. É já no próximo domingo, 25 de Fevereiro às 16.00. 
Eu gosto de coboiadas. Esta vai ter um ecran à antiga, dos grandes.   



 

Cinema no CCB:

  • Aconteceu no Oeste, Sergio Leone - 25 Fevereiro 
  • Spartacus, Stanley Kubrick - 1 de Abril
  • Boneca de luxo, Blake Edwards - 31 Maio
  • West Side Story, Robert Wise - 17 Junho
  •  
Ciclo Hyeronimus Bosch (Pequeno Auditório) Os sete pecados capitais:
  • A gula: A festa de Babette (Gabriel Axel) - 10 de Abril 
  • A luxúria: Eyes Wide Shut (Stanley Kubrick) - 12 de Abril
  • A ira: O ódio (Mathieu Kassovitz) - 14 Abril
  • A inveja: Que teria acontecido a Baby Jane (Robert Aldrich) - 16 de Abril
  • A preguiça: As férias do Sr. Hulot (Jacques Tati) - 18 de Abril
  • A soberba: O quarto mandamento (Orson Welles) - 20 Abril
  • A avareza: O Lobo de Wall Street (Scorcese) - 22 de Abril
  • El Bosco, El Jardín de los Sueños de José Luis López-Linares (documentário )- 15 de Abril (Grande Auditório)


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Avant La Lettre


A primeira imagem que me veio à cabeça quando escrevi o post anterior (Abalroado) foi o piano selvagem do Fred. Creio que perceberão porquê.

Para quem não saiba, o Fred (1931 – 2013), foi um dos seus mais criativos autores da BD, da escola franco-belga, com um lugar de relevo na História da BD.
O Le Piano Sauvage foi o segundo álbum publicado das aventuras do jovem Philemon (e do burro Anatole, do incrédulo Hector, o pai, o tio Félicien - o dono da luneta -, e todos os outros personagens fantásticos), logo a seguir ao  Le Naufragé du "A".

As aventuras de Philemon decorrem nas letras do Oceano Atlântico de um globo terrestre, para onde o jovem é enviado através da luneta invertida do tio.
Não vos conto mais mas, quem tiver curiosidade, nada como espreitar (já que os livros não existem no mercado nacional) aqui, na revista Pilote de 1968, onde Le Piano Sauvage foi originariamente publicado.


Muito pouco foi publicado (ou distribuído) em Portugal do Fred mas, no final de Dezembro, encontrei por cá (eu não conhecia) o Avant La Lettre que, embora publicado bastante mais tarde, se pretende situar como o livro 0 da colecção (antes pois do Le Naufragé du "A").  
O desenho não teria atingido ainda a sua forma acabada, mas em tudo mais é o mesmo universo delirante, o mesmo irredutível surrealismo.
É um Fred, e para um Fred nada menos que cinco estrelas.
E foi a minha prenda de natal. 



Avant La Lettre, Fred, 1978 (reedição de 2013)



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Abalroado



Hoje fui abalroado pela notícia de que um jovem de onze anos tinha sido multado em 500€ por… tocar piano.

A notícia da televisão relatava que o jovem, um prodígio do piano, treinava horas a fio em sua casa, incomodando uma vizinha, que se queixou à polícia. A polícia foi a casa do jovem e. confirmando a situação, advertiu o jovem de que teria de deixar de tocar o piano. Perante a recusa do jovem e da mãe, a polícia levantou-lhe um auto pela transgressão, tendo a Câmara de Sintra multado o jovem em quinhentos e picos euros. 

O agente da polícia entrevistado explicava a situação com visível dificuldade, aparentemente apercebido do ridículo da situação, mas inflexível na determinação: lei era lei.

Será mesmo provável que o jovem toque piano muitas horas todos os dias e aborreça os vizinhos. Pelo depoimento dos professores, ele seria mesmo um «génio»; mas mesmo um génio tem de praticar o instrumento muitas horas por dia.

No nosso quotidiano em sociedade somos perturbados pelo trânsito automóvel, pelos aviões, pelo barulho dos rádios e das televisões, as discussões dos vizinhos, o sino das igrejas, o ladrar dos cães dos quintais ou mesmo as crianças a brincar (e claro que nada pode ser mais irritante que um jovem a fazer escalas num piano cinco horas por dias). Mas também, enfim, pelo simples facto de existirmos, somos perturbados pela chuva e pelo sol e pelo vento e pelas doenças que temos ou que inventamos. (Proíba-se, pois, o mau tempo.) E claro que importunamos.(Por vezes com o nosso silêncio!!)

Será óbvio para qualquer indivíduo razoável que a queixosa é apenas uma pessoa perturbada ou, sei lá, uma velhota solitária com défice de atenção, mas, como tal, necessita de ajuda, e ela não pode ser culpada da sua perturbação. Mas já a polícia, mas já a cidade, mas já as leis: eles são culpados, sim, da imbecilidade e da tristeza. Porque proibir a música é proibir a vida. A música para aquele jovem (como o deveria ser para todos nós) é sinónimo de respirar. Proíba-se talvez o respirar?

Num qualquer país normal, o polícia, a cidade e as leis saberiam que o som de um piano não é ruído, que o piano produz música (ademais o jovem está a aprender música clássica e até já ganhou vários prémios internacionais), que o que o piano incomoda é o que a vida dos outros sempre nos incomoda.

Ao patético da situação acresce que não estamos a falar de um instrumento electrificado ou de um qualquer instrumento de índice decibélico elevado. Acresce ao ridículo que um piano faz menos ruído (ruído: como o som do piano foi referido) que o catarro do vizinho do terceiro direito da queixosa.

Num outro país qualquer que tivesse música; num país onde os nossos governantes soubessem da importância da música na vida; num outro país onde o senhor polícia, o senhor presidente da câmara e os senhores legisladores soubessem que a música deveria fazer parte da vida dos cidadãos, isto não poderia acontecer. Num país onde as pessoas aprendessem música de pequeninos, onde a música fosse acarinhada, onde a música fosse promovida, onde a música fizesse parte da cultura, a queixa da senhora seria ignorada. 

Claro que vivemos num país triste, claro que estamos em Portugal, onde a música oficial é o fado, onde a quase totalidade da população não sabe música e não toca nenhum instrumento, e onde os pimbas nascem como cogumelos. Claro que estamos em Portugal onde quem quer aprender música tem que recorrer ao ensino particular; quer dizer, tem de pagar para aprender o que a sociedade (e o Estado) tem o dever de promover, a par da língua, a par da matemática e das ciências, e da história e da filosofia, onde a prática do desporto é o futebol…

O Estado tem obrigação de acarinhar o ensino da música, e tem a obrigação de patrocinar a música das escolas particulares, de patrocinar as filarmónicas, os coros, as bandas populares, e as bandas rock e as escolas clássicas e o Jazz. O Estado tem a obrigação de não relegar a música para os concursos da televisão, o Estado (que somos nós) tem a obrigação de promover a música.

Não sei quantas vezes eu escrevi já que Portugal é um país sem música. Se fosse necessária a comprovação, ela está aqui: um jovem de onze anos foi multado pelo Estado, por tocar piano.

Está tudo dito: miséria de país onde a música é proibida!

Hoje fui abalroado!






If I'm going to Hell, I'm going there playing the piano.  
Jerry Lee Lewis

 



(desenho por TomAkaVeto)