domingo, 11 de novembro de 2018

A decadência da Marvel

Já não há paciência para os filmes da Marvel, e vi-os quase todos. E falo com a autoridade de leitor da Marvel desde há 50!!!! anos. (Já vêem como sou velho.)
Com excepção para o Deadpool II, os últimos filmes são um desastre. E refiro-me ao Thor: Ragnarok, ao Black Panther e ao Avengers: Infinity War.
Os realizadores claramente não perceberam nada do espírito que fez a diferença do universo dos super-heróis, que os fez suplantar a DC do Super-Homem. Os super-heróis da Marvel eram também anti-heróis, com personalidade, que se identificavam com os leitores no sofrimento da adolescência. Tinham namoradas, dificuldades, família, vida quotidiana, as personalidades tinham densidade, e mesmo quando ganhavam, também perdiam. Eram anti-heróis. E não vou repetir o que a sociologia escreveu sobre o Homem-Aranha ou o Hulk.     
Noutro aspecto, os super-heróis da Marvel partiam de uma ficção científica (muito ralinha, convenhamos), mas ainda assim procuravam uma credibilidade científica: o Homem-Aranha andava dependurado em teias (suportado em reais particularidades aracnídeas provocadas, enfim... pela picada de uma aranha radioactiva contaminada num acidente: uma ficção científica muito generosa), enquanto que, pelo contrário, o Super-Homem voa desafiando as leis da gravidade (bom, e anda na rua de cuecas e capa. Alguém notou que numa das histórias do super-herói das cuecas azuis ele se desloca em voo ascensional directo para um helicóptero em queda, segurando-o sem qualquer amortecimento, o que deveria resultar na destruição imediata do helicóptero, como dois objectos que se chocam em grande velocidade).   
Os super-heróis da Marvel procuravam a identificação do (com o) público adolescente, enquanto os super-heróis anteriores, da DC ou outros do tipo Capitão Marvel (que dizia «Shazam» e se transformava) eram heróis distantes. Mesmo os mais poderosos, como o Thor ou o Hulk, e mesmo os Fantastic Four, seguiam de certa forma esta linha.   
A transposição da banda desenhada para o cinema tem decaído progressivamente. Alguns dos Homem-Aranha e um ou outro ainda procuraram recuperar esta identidade, mas a sua maioria descambou.
Já não há paciência enfim, para as histórias em que os super-heróis têm de defender a humanidade, ou mesmo todo o universo. Até mesmo o herói baço que o Pantera Negra sempre foi (um super-herói tardio, que procurava responder ao publicamente correcto, incluindo um super-herói negro - significativamente «Black Panther -, secundando um outro - Falcão -, companheiro negro do Capitão América) foi recuperado da pior forma (e já não falo de alguns pormenores a rasar o racismo - os pretos falam com sotaque de Bronx - e utilizam pedras e poderes mágicos ancestrais) e vive numa terra ocultada por uma neblina (mas isso já vem do Jules Verne e do Edgar Alan Poe, se bem me recordo).      
Mas os Homem de Ferro têm tendência para partir Nova Iorque toda em cada filme, os Avengers passam a vida a invocar monstros do tipo Godzilla ou vão buscar ao Senhor dos Anéis, e os demónios do Thor têm cabeça de bode com cornos e tudo, e são vermelhos e chispam fogo... Só criatividade.
Muita desta inópia virá já dos livros, verdade, mas foi claramente acentuada no cinema. Os últimos filmes da Marvel têm argumentos verdadeiramente indigentes, vivem basicamente dos efeitos especiais, os realizadores desistiram de fazer cinema. Dir-me-ão que se trata do cinema das pipocas, o que será verdade, mas a saga d'O Senhor do Anéis ou os Harry Potter também eram e eram divertidos (eu diverti-me). Estes não. A excepção terá sido talvez a incursão de Thor (no Ragnarok), por momentos, no planeta do lixo, mas o realizador não percebeu a boa história que poderia ter tido aí, e perdeu-se.

O Infinity War foi o culminar desta indigência. A história original já não era grande coisa, mas o realizador deu cabo dela definitivamente. Aquela confusão das pedras mágicas que juntas ofereciam os poderes supremos ao seu possuidor e poderiam destruir o universo; nossa senhora: acabou-se. Para magia temos as histórias do Tolkien e da J. K. Rowling, mas elas tinham coerência em si mesmas. O Infinity War é fogo de artifício e magia de pacotilha: muito mau. (Ou então fui eu que cresci.)

A excepção vai para o Deadpool, o único «herói» com graça. Mas o Deadpool é uma sátira em torno do universo dos super-heróis; um super-anti-herói bronco, mal educado e pouco politicamente correcto.
O Deadpool goza com o universo dos super-heróis, goza com a própria lógica que lhe está subjacente, e é muito divertido. É um filme de super-heróis «para adultos», e diria que se inspira na mesma cultura pop, e possui a mesma lógica, do universo onde vivem os quatro alucinados amigos do Big Bang Theory.  

(Este post já foi escrito há uns largos meses mas, por qualquer razão andou por aí perdido. Aqui vai...)


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