sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Abalroado



Hoje fui abalroado pela notícia de que um jovem de onze anos tinha sido multado em 500€ por… tocar piano.

A notícia da televisão relatava que o jovem, um prodígio do piano, treinava horas a fio em sua casa, incomodando uma vizinha, que se queixou à polícia. A polícia foi a casa do jovem e. confirmando a situação, advertiu o jovem de que teria de deixar de tocar o piano. Perante a recusa do jovem e da mãe, a polícia levantou-lhe um auto pela transgressão, tendo a Câmara de Sintra multado o jovem em quinhentos e picos euros. 

O agente da polícia entrevistado explicava a situação com visível dificuldade, aparentemente apercebido do ridículo da situação, mas inflexível na determinação: lei era lei.

Será mesmo provável que o jovem toque piano muitas horas todos os dias e aborreça os vizinhos. Pelo depoimento dos professores, ele seria mesmo um «génio»; mas mesmo um génio tem de praticar o instrumento muitas horas por dia.

No nosso quotidiano em sociedade somos perturbados pelo trânsito automóvel, pelos aviões, pelo barulho dos rádios e das televisões, as discussões dos vizinhos, o sino das igrejas, o ladrar dos cães dos quintais ou mesmo as crianças a brincar (e claro que nada pode ser mais irritante que um jovem a fazer escalas num piano cinco horas por dias). Mas também, enfim, pelo simples facto de existirmos, somos perturbados pela chuva e pelo sol e pelo vento e pelas doenças que temos ou que inventamos. (Proíba-se, pois, o mau tempo.) E claro que importunamos.(Por vezes com o nosso silêncio!!)

Será óbvio para qualquer indivíduo razoável que a queixosa é apenas uma pessoa perturbada ou, sei lá, uma velhota solitária com défice de atenção, mas, como tal, necessita de ajuda, e ela não pode ser culpada da sua perturbação. Mas já a polícia, mas já a cidade, mas já as leis: eles são culpados, sim, da imbecilidade e da tristeza. Porque proibir a música é proibir a vida. A música para aquele jovem (como o deveria ser para todos nós) é sinónimo de respirar. Proíba-se talvez o respirar?

Num qualquer país normal, o polícia, a cidade e as leis saberiam que o som de um piano não é ruído, que o piano produz música (ademais o jovem está a aprender música clássica e até já ganhou vários prémios internacionais), que o que o piano incomoda é o que a vida dos outros sempre nos incomoda.

Ao patético da situação acresce que não estamos a falar de um instrumento electrificado ou de um qualquer instrumento de índice decibélico elevado. Acresce ao ridículo que um piano faz menos ruído (ruído: como o som do piano foi referido) que o catarro do vizinho do terceiro direito da queixosa.

Num outro país qualquer que tivesse música; num país onde os nossos governantes soubessem da importância da música na vida; num outro país onde o senhor polícia, o senhor presidente da câmara e os senhores legisladores soubessem que a música deveria fazer parte da vida dos cidadãos, isto não poderia acontecer. Num país onde as pessoas aprendessem música de pequeninos, onde a música fosse acarinhada, onde a música fosse promovida, onde a música fizesse parte da cultura, a queixa da senhora seria ignorada. 

Claro que vivemos num país triste, claro que estamos em Portugal, onde a música oficial é o fado, onde a quase totalidade da população não sabe música e não toca nenhum instrumento, e onde os pimbas nascem como cogumelos. Claro que estamos em Portugal onde quem quer aprender música tem que recorrer ao ensino particular; quer dizer, tem de pagar para aprender o que a sociedade (e o Estado) tem o dever de promover, a par da língua, a par da matemática e das ciências, e da história e da filosofia, onde a prática do desporto é o futebol…

O Estado tem obrigação de acarinhar o ensino da música, e tem a obrigação de patrocinar a música das escolas particulares, de patrocinar as filarmónicas, os coros, as bandas populares, e as bandas rock e as escolas clássicas e o Jazz. O Estado tem a obrigação de não relegar a música para os concursos da televisão, o Estado (que somos nós) tem a obrigação de promover a música.

Não sei quantas vezes eu escrevi já que Portugal é um país sem música. Se fosse necessária a comprovação, ela está aqui: um jovem de onze anos foi multado pelo Estado, por tocar piano.

Está tudo dito: miséria de país onde a música é proibida!

Hoje fui abalroado!






If I'm going to Hell, I'm going there playing the piano.  
Jerry Lee Lewis

 



(desenho por TomAkaVeto)



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